um beijo para gabriela

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É ILEGAL SER NORMAL

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Repostamos aqui a nota maravilhosa e comovente da ANTRA. 

NOTA DE PESAR DA ANTRA PELO FALECIMENTO DA ATIVISTA GABRIELA LEITE

A Associação Nacional de Travestis e Transexuais ANTRA, vem a público se
solidarizar a família enlutada e prestar o pesar pelo passamento da
querida ativista Gabriela Leite.

Falar de Gabriela é sempre lembrar os seus questionamentos sempre
contundentes e seguros defendendo as suas causas, bandeiras e
ideologias, assumir-se PUTA como ela gostava de dizer era o máximo da
quebra de padrões morais tão constituídos nos nossos meios.

Gabriela foi uma das pessoas que mais dedicou a sua vida para escancarar
que ser Puta não era sinônimo de desprezo, mas sim um modo de vida e
comportamento para ter a sua autoestima mais elevada, pois sendo Puta
você estava sendo desejadas pelos homens e além de tudo eles ainda
pagavam.

Trabalhou e muito para colocar as PUTAS no convívio social, mas nunca
condicionou o trabalho das mesmas a condição de deixar de fazer o que
queriam, pelo contrário ensinava sempre o lado positivo da vida.

Gabriela nos ensinou muito do que sabemos hoje, foi ela quem nos idos
dos anos 90 incentivou que nós assumíssemos a identidade travestí como
forma de desestigmatizar essa palavra, que nós podemos ser o que
quisermos e onde quisermos.

Foi uma passagem muito importante nesse plano e, vai deixar frutos que
levarão a sua mensagem e as suas ações para um futuro, um futuro onde a
gente consiga sair dessas caixas que nos colocam e poder viver fora
dela, sem padrões moral, social, ideológico enfim fora dos padrões da
normalidade que para nós não serve de nada.

É ILEGAL SER NORMAL

GABRIELA LEITE VIVERÁ PARA SEMPRE ENTRE NÓS!

www.atms.org.br

À Gabriela

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Gabriela Leite inaugurou um modo de ser e fazer política. Todos que a conheceram se lembram da primeira vez que a viram e ouviram. Pois Gabriela era assim: magnética, inesquecível, carismática, charmosa, elegante, cheirosa, marcante, libertária, destemida, ousada, estilosa, amiga, generosa, combativa, alegre, guerreira, presente, ímpar, parceira, conselheira, persistente, inspiradora… era uma musa! Era uma mulher! Era uma puta! Era uma puta mulher! Pura vida! Da vida!

Ao cair da tarde do dia 10 de outubro de 2013, Gabriela partiu deixando com a gente a enorme responsabilidade de prosseguir com tudo o que ela nos ensinou com palavras, gestos e atitudes. Amanhã quem quiser prestar homenagem a Gabriela, o velório será às 8 horas no Cemitério do Catumbi, Capela i. A cerimônia será às 8:30 e o sepultamento, às 9:30.

Deixamos, aqui, a Gabi falar por ela mesma:


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Discussão sobre prostituição ganha espaços importantes no Congresso Nacional e Subsecretaria de Políticas das Mulheres no Rio de Janeiro

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Na sexta-feira, dia 13, passada, houve dois ganhos importantes para os debates sobre a regulamentação da prostituição: o anúncio da criação de uma comissão especial para analisar  projeto de lei Gabriela Leite do Deputado Federal Jean Wyllys (PSOL-RJ) e  a realização de um debate sobre prostituição e políticas públicas na Subsecretaria de Políticas para as Mulheres no Rio de Janeiro, com a presença do Deputado Jean Wyllys, da ativista e pesquisadora Sonia Corrêa da ABIA/Observatório de Políticas de Sexualidade,  da Subsecretária Adriana Mota, e videos de Gabriela Leite (incluídos como extras no DVD do documentário) nos quais ela comenta sobre a historia do movimento e política e prostituição no Brasil hoje.

Debate SPM

 

O debate enfocou no projeto de lei Gabriela Leite. Jean Wyllys estava bastante positivo frente a mudança de cenário de tramitação do lei pois tirou o projeto das mãos dos pastores na comissão de Direitos Humanos. A decisão foi resultado de um requerimento feito pela CPI do Trafico ao Presidente da Câmara para a criação de uma comissão especial. O Deputado comentou que tanto a CPI do Tráfico como a CPI da Exploração Sexual, ambas das quais ele participa, apoiam a regulamentação da prostituição como uma forma de combater o tráfico e exploração sexual de crianças e adolescentes.

O debate sobre a prostituição no âmbito do feminismo sempre tem sido um tema polêmico (veja nosso post sobre um debate com Gabriela, Jean, Sonia e outr@s na OAB o ano passado) e infelizmente, raramente debatido nos espaços governamentais de políticas das mulheres. Portanto, o fato do debate ter acontecido de uma forma aberta, tranquila e respeitosa dentro da Subsecretaria é um  avanço não somente para a lei Gabriela Leite, mas também no debate sobre o desenvolvimento de políticas publicas que promovem os direitos sexuais e laborais das prostitutas.

Aproveitamos a oportunidade para lançar mais um video da entrevista feita com a Gabriela Leite incluída no DVD do documentario onde ela comenta sobre a lei nomeada em sua honra:


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E um video do Jean Wyllys explicando a lei:


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Campanhas de Protesto Feitas por Prostitutas Felizes

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GEMPAC protest campaign

Nota da Rede Brasileira de Prostitutas, em 7 de junho de 2013, sobre censura, intervenção e alteração de campanha de prevenção de Aids pelo governo federal

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Contra o bem de todos e a felicidade geral da nação, governo viola princípios da Constituição e do Sistema Único de Saúde

O movimento de prostitutas e a reforma sanitária, que levou à construção do Sistema Único de Saúde, têm pontos comuns em suas trajetórias: processos de diálogo, de criação e de ação. Se a Saúde tornou-se dever do Estado e direito de todos – orientada pelos princípios da universalidade, igualdade (sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie), integralidade, descentralização e participação da comunidade –, o movimento de prostitutas nasceu denunciando a desigualdade, o preconceito e a discriminação, e afirmando o direito ao trabalho com dignidade, respeito e cidadania.

Passados 30 anos, ao vetar e depois alterar drasticamente uma campanha de prevenção de Aids supostamente construída em parceria com as prostitutas,  o governo usa esse grupo social para afirmar o que deseja, ignora conquistas do movimento social e viola diversos princípios democráticos e do SUS.

Em primeiro lugar, o da participação da comunidade. A oficina destinada a criar a campanha, promovida em março pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, resultou em peças que destacavam como elementos fundamentais na prevenção a felicidade (“sou feliz sendo prostituta”), a cidadania (“o sonho maior é que a sociedade nos veja como cidadãs), a luta contra a violência (“não aceitar as pessoas da forma que elas são é uma violência”) e a camisinha. O que fez o governo? Ignorou todos aqueles elementos que comprovadamente contribuem para a prevenção, limitando-se a incentivar imperativamente o uso da camisinha, como se fosse um gesto puramente objetivo e mecânico, dissociado de subjetividades, direitos e vulnerabilidades. É a higienização da vida.

Em segundo lugar, ao selecionar apenas determinada mensagem entre as construídas na oficina, recusa o princípio da igualdade, por negar às prostitutas o direito de expressar seus sonhos e ideais, de cidadania, afirmação de identidade e visibilidade social, deixando de reconhecê-las como cidadãs e usuárias do SUS.

Ações de prevenção e promoção da saúde fundadas em diretrizes de cidadania, deve-se destacar, também fazem parte de outro princípio da Saúde violado, o da integralidade.

Ainda mais, com essa forma de agir, o governo se coloca na arrogante posição de só permitir às prostitutas aparecer como vítimas ou vetores, portanto, sujeito sem voz, que só tem o direito de ser resgatado pelo Estado provedor do único elemento (“pegue a sua camisinha na unidade de saúde”) que irá salvá-las da Aids.

A atitude do governo também revela a tentativa de alimentar a estrutura moral da família a qualquer custo, numa covarde cumplicidade com um discurso que relega prostitutas e outros segmentos “inconvenientes” à margem de um modelo de sociedade.

Ao se pronunciar logo de início contra o texto “Sou feliz sendo prostituta”, demonstra também a arrogância de não acreditar que uma prostituta pode ser feliz e o medo de que nós expressemos um desejo de felicidade que vai contra esse modelo.

E o desejo dos políticos? Que arranjos estão por trás dessa movimentação? Existe aí um projeto de felicidade? Por que só eles podem ser felizes? Qual o preço a ser pago pelas prostitutas? Nossos corpos, desejos e vidas é que estão pagando o preço de acordos políticos e negociações partidárias, o custo da prática da censura e do encerramento do diálogo.

Aqui ficaremos, sim, felizes com nossa profissão. Acreditando que não devemos conviver com a violência e a discriminação e que temos de ser respeitadas por nossas escolhas cidadãs. E insistindo que o governo assuma, com coragem, a construção de políticas baseadas nos princípios constitucionais para toda a população, independentemente de orientação sexual, identidade de gênero ou profissão.

fonte: Beijo da Rua

[Baixe uma copia da nota para divulgar em português , em  inglês espanhol.] 

 

Sem Vergonha de Compartilhar a Campanha Censurada pelo Ministro

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As peças que você vê aqui são da campanha ‘Sem vergonha de usar camisinha’, lançada e logo após censurada e tirada do ar pelo Ministério da Saúde do Brasil. A maior parte delas foi elaborada em oficina de comunicação e saúde promovida pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais com prostitutas de diversos estados, em março. A peça com o texto “Eu sou feliz sendo prostituta” e a imagem da prostituta Nilce, de Porto Alegre, foi o mote do governo Dilma para iniciar um escândalo político de consequências imprevisíveis.

Primeiro, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, mandou tirar essa peça do ar – ou seja, do site do Departamento de AIDS – e ameaçou demitir a equipe de comunicação do órgão. Depois, demitiu o próprio diretor, Dirceu Greco, e censurou todas as outras peças da campanha.

Aqui, porém, você vê tudo o que o governo Dilma tem medo de mostrar, por causa de alianças com fundamentalistas. E pode celebrar conosco esse histórico Dia Internacional das Prostitutas, lembrando que liberdade e felicidade são, sim, parceiras da prevenção em saúde. E que censura, estigma e discriminação são os piores adversários.

 

 

Sou feliz sendo prostituta Cidadania Campanha DSTAIDSViolenca_Campanha DSTAIDS Toda dia prevencao_Campanha DSTAIDSSem vergonha lutar pelos direitos Sem Vergonha Trabalho Sem vergonha de ser prostituta Maria Sem Vergonha Camisinha


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Hoje é o Dia da Puta!

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Hoje, o dia 02 de junho é o Dia Internacional da Prostituta!  O dia comemora o 2 de junho de 1975 quando 150 prostitutas ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, na França. Elas protestavam contra multas e detenções feitas em nome de uma “guerra contra o rufianismo”.  Ao ter a coragem de romper o silêncio e denunciar o preconceito, a discriminação e as arbitrariedades, as prostitutas de Lyon entraram para a história. Por isso, o 2 de junho foi declarado, pelo movimento organizado, como o Dia Internacional da Prostituta. Leia sobre a história do dia aqui e como o Grupo de Mulheres Prostitutas do Pará (GEMPAC) marcou o dia com intervenções culturais e políticas incríveis no PUTA DEI em Belém de Para.

Para comemorar o dia, estamos lançando aqui uma série de entrevistas com Gabriela Leite feitas em 2013 para os extras do DVD do documentário. Primeiro Gabriela fala sobre a história do movimento de prostitutas, seu começo junto com a Lourdes Barreto do GEMPAC.  No segundo video, Gabriela fala sobre os desafios e temas de importância para o avanço dos direitos das prostitutas hoje no Brasil.  Fechamos  com sugestões da Gabriela sobre como as pessoas podem apoiar o movimento. Desfrute, compartilhe e participe!


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História do Dia Internacional da Prostituta

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No dia 2 de junho de 1975, 150 prostitutas ocuparam a igreja de Saint-Nizier, em Lyon, na França. Elas protestavam contra multas e detenções, em nome de uma “guerra contra o rufianismo”, e até contra assassinatos de colegas que sequer eram investigados. Além disso, maridos e filhos de prostitutas eram processados como rufiões, por se beneficiarem dos rendimentos das mulheres. Tabernas deixaram de alugar quartos para as trabalhadoras do sexo, com medo da repressão policial. A diretoria da igreja e a população de Lyon apoiaram a manifestação e deram proteção a elas.
A ocupação da igreja foi transmitida por todos os meios de comunicação, no país e no exterior, inclusive no Brasil. As mulheres exigiam que o seu trabalho fosse considerado “tão útil à França como outro qualquer”. Outras 200 prostitutas percorreram as ruas de carro distribuindo filipetas, com denúncias de que eram “vítimas de perseguição policial”, o que as impedia de trabalhar. Uma carta foi enviada ao presidente Giscard d’Estaing.
O movimento se ampliou para outras cidades francesas, como Marselha, Montpellier, Grenoble e Paris, onde colegas também entraram em greve.
No dia 10 de junho, às 5 horas de manhã, as mulheres na igreja de Saint-Nizier foram brutalmente expulsas pela polícia.
Ao ter a coragem de romper o silêncio e denunciar o preconceito, a discriminação e as arbitrariedades, chamando a atenção para a situação em que viviam, as prostitutas de Lyon entraram para a história. Por isso, o 2 de junho foi declarado, pelo movimento organizado, como o Dia Internacional da Prostituta.

PARABENS GABRIELA!

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Hoje, o 22 de abril é o aniversario da Gabriela Leite!

Como presente, mandamos todos os beijos enviados pelas plateias de Nova Iorque e a estreia em Kansas!


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Políticas de prevenção para prostitutas desconsideram direitos e cidadania: Movimento social propõe ao Estado retomar diálogo e ações históricas

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Materia publicada no jornal, “Beijo da Rua” , por Flavio Lenz (www.beijodarua.com.br)
31/8/2012

Discriminação, estigma, vitimização, criminalização e outras violações de direitos humanos, como violência, são os maiores causadores das vulnerabilidades de prostitutas e demais profissionais do sexo. No entanto, essas questões deixaram de ser consideradas até mesmo em políticas de prevenção de DST e Aids, as únicas voltadas para a prostituição.

Esta foi a principal conclusão da Conversa Afiada “Prostituição, direitos e enfrentamento de vulnerabilidades no contexto da América Latina”, nesta quinta-feira, durante o macro-evento brasileiro, latino-americano e caribenho sobre HIV/Aids que se realiza no Anhembi, em São Paulo (http://sistemas.aids.gov.br/congressoprevencao/2012/).

Para Gabriela Leite, fundadora da Rede Brasileira de Prostitutas, da ONG Davida e da grife Daspu, a saúde pública voltou a ver a prostituta “apenas como um corpo, e da cintura para baixo”. Ela lembrou que movimento social e o setor de Aids do governo federal começaram a discutir, conceber e executar políticas de prevenção para prostitutas no fim dos anos 1980, e destacou a campanha Sem Vergonha, garota. Você tem profissão, de 2002, que “tratava diretamente de questões de direitos humanos”. Com o tempo, porém, até “a reprodução desses folhetos sumiu do site da Aids”, demonstrando, para Gabriela, que é preciso uma “renovação do diálogo” entre o movimento de prostitutas e o atual Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais.

“Chegamos à conclusão de que estamos confinadas na saúde, outra vez associadas a doenças, como no século XIX – tem também a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), mas é só isso. Não estamos na Secretaria de Direitos Humanos, na de Políticas para Mulheres, no Ministério da Cultura, e a justificativa é sempre que já estamos na Aids”, disse Gabriela. “Por isso, as organizações da Rede Brasileira decidiram levar essa discussão para a sociedade e não mais se candidatar a editais nacionais de Aids, enquanto não renovarmos o diálogo. Nunca houve, por exemplo, uma análise da metodologia de educação pelos pares, que vem desde 1989”.

Gabriela encerrou sua intervenção reafirmando que “não dá para trabalhar Aids sem considerar direitos humanos, sem considerar o que o Senado e a Câmara estão discutindo sobre nós, ou sem discutir saúde da mulher. Não queremos consultórios na rua, mas promoção do acesso ao SUS, como qualquer outra pessoa. Chega de ser tratada como um caso à parte”.

A pesquisadora Ilana Mountian, da USP, que desenvolve estudos sobre travestis e transexuais que trabalham na prostituição, no Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, em Belo Horizonte, destacou a transfobia entre as vulnerabilidades desse segmento. “Vivem questões como a violênca transfóbica e um relacionamento muito complexo com a polícia, e têm que fazer acordos para viver nas comunidades”. Outra vulnerabilidade é o uso do crack “por algumas delas”. Com relação a preservativos, disse que recebem das donas de casa e não vão aos postos de saúde para isso.

Ilana ressaltou ainda a importância de parcerias entre movimento social e academia, afirmando que há “pouca pesquisa sobre a população de travestis e transexuais prostitutas”.

Representante na América Latina da Rede Mundial do Trabalho Sexual (NSWP), a peruana Angela Villón denunciou o “estigma, a discriminação e a desvalorização da prostituição”, apontando o feminismo, o machismo e a religião entre os responsáveis por isso. “Há movimentos feministas que fazem o discurso de que o trabalho sexual é resultado da opressão dos homens e que, portanto, somos vítimas, metendo isso na cabeça de muitas colegas. Ao mesmo tempo, nos invisibilizam nos informes de feminicídio, resultado do machismo que mata e produz a violência de gênero, esquecendo que também somos mulheres. E tem a questão da religião, de que não vamos entrar no reino dos céus”.

Também dirigente da associação Miluska Vida Y Dignidad, sediada em Lima, Angela destacou ainda a confusão promovida entre tráfico de pessoas e prostituição e indicou o que considera a maior vulnerabilidade das prostitutas: “O grande problema é a violência, mas não do cliente, e sim da polícia, ou de delinquentes que se fazem passar por clientes. Com a violência não podemos fazer prevenção de DST e Aids. Temos que enfrentar antes de tudo a violência”.

Estudo aponta confinamento de políticas

Resultados preliminares da “Análise do contexto da prostituição em relação a direitos humanos, trabalho, cultura e saúde em cidades brasileiras”, apoiada pela Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e realizada por Abia em parceria com Davida, foram apresentados pela pesquisadora Laura Murray. A primeira fase do estudo foi de levantamento de políticas nacionais e internacionais sobre direitos humanos, HIV/Aids e prostituição, ao lado de um histórico sobre como o Estado tratou esses temas. Isso tudo foi feito por meio da pesquisa de documentos, políticas e projetos de leis, da análise de PAMS e de entrevistas com 47 gestores e técnicos do Executivo federal, representantes de agências internacionais, consultores legislativos, senadores e deputados.

Em relação à saúde, Laura relacionou cinco achados. “Quando se trata da prostituição, saúde é igual a HIV/AIDS, não havendo políticas nacionais de saúde das prostitutas que não sejam dirigidas à prevenção do HIV. Mesmo nesse campo, a análise dos PAMS estaduais e municipais apontou poucas ações para essa população – em menos da metade dos municípios habilitados para receber dinheiro dos PAMS; e, durante a vigência do Plano de Enfrentamento da Feminização da Aids, de 2007 a 2009, um volume de ações nos PAMS estaduais e municipais de apenas 4,1%.”.

O terceiro achado é o de que, embora estudos mais recentes indiquem redução da prevalência do HIV entre prostitutas, a diferença entre a prevalência em prostitutas e mulheres da população geral não se alterou significativamente, mantendo-se 10 vezes maior nas primeiras. Outro achado da primeira fase do estudo aponta que as políticas de HIV/Aids para prostitutas se dão de forma isolada em relação aos outros departamentos do Ministério da Saúde, assim como a outros setores do governo, embora a interssetoralidade seja uma demanda das prostitutas já reconhecida em consultas latino-americana e brasileira e na Agenda Afirmativa das Prostitutas no Plano de Enfrentamento da Feminização.

Ainda na saúde, a integrante da equipe da pesquisa disse que houve um efeito paradoxal no período em que o setor federal de Aids assumiu um posição clara de defesa dos direitos das prostitutas. “Por um lado, foi sem dúvida positivo; mas, por outro, teve o efeito colateral perverso de fazer com que os demais setores do Executivo não tratassem diretamente do tema, pois cristalizou-se a ideia de que prostituição é um assunto da Aids”. Laura Murray não deixou de citar a inclusão da categoria “profissionais do sexo” na CBO, do Ministério do Trabalho, mas destacou que não se identifica, atualmente, nenhuma ação ou intenção de ação relacionada à promoção da profissão nessa pasta.

Já os achados sobre direitos são, até aqui, os seguintes: predomina silêncio em relação a ações de promoção de cidadania e direitos das prostitutas em quase todos os setores de governo, prevalecendo a disseminação e absorção mais rápida de parâmetros de criminalização e vitimização, evidenciados na atuação concentrada nos campos do enfrentamento ao tráfico de pessoas e da exploração sexual de crianças e adolescentes. E isso ocorre “ao mesmo tempo em que normas e diretrizes internacionais construídas na intersecção entre saúde e direitos humanos preconizam claramente a descriminalização do HIV e da prostituição”.

Nesse contexto, finalizou a representante da equipe do estudo, “as políticas relacionadas aos direitos das prostitutas estão soterradas por essas outras linhas de ação do Estado, muitas vezes parecendo produzir, em vez de reduzir, vulnerabilidades à violência e ao HIV/Aids”.

Debate

Aberto pela moderadora Elisiane Pasini, do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais, o debate afiou ainda mais a Conversa. Gestoras de Aids em municípios dos estados do Rio e Espírito Santo defenderam os “consultórios na rua” para prostitutas, estratégia que vem sendo alvo de acalorado debate dentro do próprio governo. Segundo elas, o sistema incentiva as mulheres a frequentarem os centros de testagem e aconselhamento (CTAs). Já a consultora Lilia Rossi quis saber se havia alguma recomendação do estudo apresentado a partir da constatação de que a atuação do setor federal de Aids inibiu outros segmentos do governo em relação à prostituição.

Gabriela Leite voltou a questionar a vitimização e a associação de prostituição com doenças, especialmente as que têm origem “da cintura para baixo”, diante das intervenções das gestoras. “Não é o sistema de saúde em geral que vocês querem que as prostituas frequentem; são os CTAs. Por que não põem esses consultórios na rua para as mulheres donas de casa? Será que elas vão aos CTAs? Acabamos de apontar uma série de vulnerabilidades da prostituição, como viver em ambientes de trabalho sem respeito aos direitos humanos, sem vasos sanitários. Isso é vulnerabilidade. Não é ser puta. Falamos, falamos e parece que ninguém ouve”.

Ela ressaltou ainda que a pesquisa busca demonstrar “o que o Estado brasileiro está pensando sobre nós”. Deu como exemplo a Secretaria de Direitos das Mulheres, “que não quer saber de prostituição com o argumento de que não há unanimidade no discurso do movimento e por conta das criancinhas que sofrem exploração sexual”. O que se pretende, disse Gabriela, “é fazer um discurso político, para o qual a academia é fundamental, ao desvendar uma série de questões”. E concluiu: “O Estado brasileiro tem que ser criticado, sim, pelo movimento social. Muitas vezes ele se pensa o próprio movimento social. O diálogo está suspenso, mas não parado. Se esta mesa valer para isso, terá sido ótimo. Vamos continuar o diálogo”.

Um incentivo a esse diálogo, de acordo com Laura Murray, pode já ter acontecido por meio das entrevistas promovidas pelo estudo em Brasília. “Notamos um certo silêncio, mas não falta de interesse. Uma discussão interessetorial pode ter sido provocada”. Ela adiantou que uma das recomendações do estudo será a de tratar do tema indústria do sexo, “que está silenciado”. E emendou: “A resposta brasileira à Aids sempre considerou cidadania e direitos como fundamentais. Agora é preciso provocar o debate de novo. E não é tão difícil. Além de dizer que o preservativo é fundamental, também é preciso dizer que a descriminalização é fundamental, ver isso como um discurso de prevenção. Serviço de saúde não é apenas a saúde do corpo”.

O apagamento da questão dos direitos em políticas ligadas à prostituição “é ainda mais estrutural e não pode ser desvinculado do soterramento dos direitos humanos na Aids, em geral”, alertou Sonia Correia, da Abia. Ela lembrou que o governo apresentou recentemente a sua revisão periódica universal para o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e não incluiu o HIV. “Portanto, para o governo, HIV não é uma questão de direitos humanos”.

Socióloga do Programa de Aids do Estado de São Paulo, Nina Laurindo elogiou a Conversa Afiada, por “reviver debates que havia na década de 1990 e que pareciam ter acabado”. E resumiu assim esse período: “Houve um retrocesso, os companheiros da Aids estão todos muito pautados em camisinha e teste, e não em direitos, violência, cidadania. Todos os projetos se denominam de ‘prevenção de DST/Aids e direitos das prostitutas’, mas não há essa discussão de fato”.

A moderadora Elisiane Pasini, do Departamento de Aids, encerrou a Conversa Afiada: “Precisamos avançar, ouvindo todas as vozes. Essa mesa foi feita com a intenção de que a gente possa trazer essa discussão novamente e acreditar nesses direitos humanos que estamos construindo”.