um beijo para gabriela

E-mail enviado à Direção do Departamento Nacional de DST/AIDS e Hepatites Virais

Algumas poucas considerações sobre Prostituição, Aids e Vida

Hoje (30.10.2012) assisti pela internet a reunião ampliada do Departamento de Aids e Hepatites Virais. Avisei as minhas companheiras da Rede Brasileira de Prostitutas da importância em participar da reunião e colocar algumas das nossas posições. Maria de Lourdes Barreto foi brilhante nas duas colocações que fez e reflete com todas as letras o que pensamos a respeito da atual resposta brasileira.

Fico triste, e a reunião confirmou minha tristeza que desde o congresso de prevenção me acompanha, porque sinto um retrocesso imenso a tal ponto que ninguém mais sequer mede as palavras para falar em “grupo de risco”. Agora nem o politicamente correto (que não gosto) nos salva: a equação puta=grupo de risco é um fato para os técnicos epidemiologistas de plantão.

Mas paro aqui de chorar as mágoas e de ter saudades dos tempos modernos que vivemos nos anos 1990 quando, de fato, construímos uma resposta brasileira. Quero colocar 3 questões sobre prostituição e aids.

1) Pesquisa RDS

Acompanhei a pesquisa desde sua elaboração até a apresentação final. Eu e Roberto Chateubriand funcionamos como uma espécie de consultores do movimento de prostitutas. Sempre falei e repeti para a Célia Landmann e sua equipe que nossa amostra, apesar de contemplar 10 cidades não era assim tão representativa já que somente iria trabalhar com um certo grupo de prostitutas: as prostitutas do baixo meretrício e muitas vezes de zonas confinadas. Ora, a indústria do sexo é de uma grande complexidade. Convive-se com a alta, média e baixa prostituição. Convive-se com boates, saunas, prédios inteiros com apartamentos com várias especializações (sado-masoquismo, fantasias sexuais várias, etc.). Convive-se com sites na internet e inclusive dizem alguns estudos que a indústria do sexo é hoje a terceira fonte de recursos da internet.
A indústria do sexo é grande, complexa e diferenciada. O problema é uma antiga lenda criada pela igreja católica e reafirmada pelas feministas: prostitutas são mulheres pobres que por falta de oportunidades e para poder criar seus filhinhos “caíram” na prostituição. Para referendar essa pretensa verdade todos os que vão trabalhar com a prostituição, procuram as prostitutas do baixo meretrício. Além de ser uma população bastante fácil de ser acessada (ao contrário do que se fala), seu depoimento, respostas e perfil econômico/cultural/social são exatamente aquilo que os pesquisadores querem ouvir. Muito recentemente, alguns pesquisadores jovens antropólogos vem se aventurando no universo de uma prostituição que eu diria mais estruturada. Dois trabalhos muito interessantes foram apresentados no último congresso da ABA (Associação Brasileira de Antropologia).
Os 4,9% de prevalência (Gerson Pereira errou quando disse hoje 5,9%) diz respeito a um subgrupo da prostituição. Não representa a complexidade da prostituição e neste sentido faço a pergunta: que olhar é esse que só vê um certo subgrupo de mulheres prostitutas?

2) Educação pelos pares

A primeira vez que fui a uma reunião no antigo Programa de Aids foi em 1989. Dra. Lair Guerra de Macedo era a diretora do Programa e ali começamos a pensar o desenvolvimento de um projeto a partir da educação pelos pares. Eu já tinha lido a respeito e, a época, simpatizei com a metodologia. Daí surgiu o projeto Previna e começamos em áreas de prostituição de todo país a desenvolver a metodologia da educação pelos pares.

O que me espanta é que até hoje, passados tantos anos, não tivemos nenhuma avaliação sobre a eficácia ou não de tal metodologia. Estudos e estudos foram realizados em outros países. Aqui, em terras brasilis, nada! Pode ser que para algumas populações a metodologia seja eficaz, pode ser que para outras seja ineficaz. Tudo depende da cultura específica, da existência ou não de estigma, de classe social, etc., etc., Todo caso, não sabemos de nada. Me parece que a educação pelos pares é um dogma que jamais poderá ser mexido.

3) Consulta nacional e consulta latino-americana sobre prostituição.

No decorrer desses anos foram realizadas duas amplas consultas, ambas por iniciativa do Departamento de Aids brasileiro ( à época Programa de DST/AIDS). Uma em Lima, Peru e a brasileira em Brasília. As duas foram altamente representativas com a presença de mulheres prostitutas, travestis que trabalham na prostituição e michês. Na brasileira estavam presentes a Rede Brasileira de prostitutas (que pertenço) de orientação trabalhista e da livre expressão sexual e a Federação de Mulheres Prostituídas de orientação abolicionista. Travestis que defendiam o trabalho sexual e travestis que deploravam o trabalho sexual. Como podem ver ampla representatividade de onde saíram recomendações (mais de 50) que privilegiavam direitos humanos, cidadania, trabalho, profissionalização em outras áreas, etc. Todos (convergentes e divergentes) concordaram naquela consulta que as questões ditas transversais eram fundamentais para a prevenção das DST/AIDS.

Relatório das consultas com as recomendações: provavelmente esquecidas em alguma gaveta ou arquivo do Departamento. Com toda certeza totalmente esquecidas. Gastou-se dinheiro e tempo. O caminho da complexidade da prostituição e aids é longo. Nós, ativistas, da Rede Brasileira de Prostitutas e do Movimento Aids trabalhamos e nos esforçamos para hoje, passados tantos anos ser o que sempre fomos para a epidemiologia: grupo de risco. Nada mais!

Diante do exposto, proponho uma grande reunião somente para estruturar um amplo planejamento de avaliação e ação no campo da prostituição. Apesar de estar tratando de um câncer, me sinto forte o suficiente para contribuir nesse processo.

Termino essa nota agradecendo ao Instituto Nacional do Câncer e aos seus profissionais que cuidam de mim e de tantas outras pessoas e que mostra com todas as letras que o ótimo funcionamento do SUS é possível desde que exista vontade política e gestão eficiente. Me sinto orgulhosa e plena cidadã em cada consulta que compareço nesse Centro de Excelência.
Gabriela Leite

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One Response to E-mail enviado à Direção do Departamento Nacional de DST/AIDS e Hepatites Virais

  1. Mauricio Abreu de Toledo

    Tem gente que aluga o corpo. Tem gente que vende a mente.

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