um beijo para gabriela

“EU EU EU, EU SÓ DOU O QUE É MEU”: Prostitutas de Niterói ocupam ruas para denunciar invasão da polícia a salas de batalha e detenções ilegais

bangu

[Re-post da matéria publicada no jornal Beijo da Rua no dia 19 de abril]

Soraya Silveira Simões

Fotos de Laura Murray

Foto niteroi queremos trabalhar

19/4/2014 

Quinze de abril de 2014: Niterói, enfim, inaugura uma nova era! As prostitutas que trabalham no edifício nº 327, conhecido como “prédio da Caixa (por estar ao lado de imóvel da Caixa Econômica Federal)”, na Avenida Amaral Peixoto, principal artéria do Centro comercial da antiga capital do Estado do Rio, deram um show de charme, beleza e cidadania ao saírem pelas ruas e avenidas da região anunciando sua profissão e, para os desavisados, esclarecendo sua legalidade.

Levantando faixas onde se lia “prostituição não é crime”, “queremos trabalhar”, “CBO 5298-5 Lei 8212/91” (a ocupação registrada no Ministério do Trabalho e a lei da seguridade social) e “não queremos ir para Bangu”, elas denunciaram a ação criminosa da polícia, que, dias antes, invadiu as salas onde atendiam seus clientes. O saldo dessa ação inesperada foi a retenção arbitrária de 11 prostitutas, que passaram a noite na delegacia de Polícia até serem levadas, no dia seguinte, para o presídio de Bangu. 

A resposta a tamanha truculência e ilegalidade foi o grito promovido nas ruas e, com ele, o esclarecimento da população sobre a legalidade do trabalho sexual. Assumidas, maquiadas e bem humoradas, cerca de 100 prostitutas pararam o trânsito da Avenida Amaral Peixoto e da Rua da Conceição, rumo à 76 DP. 

No caminho, foram arrebanhando simpatizantes: lojistas, transeuntes, passageiros de ônibus, executivos, ciclistas, homens e mulheres de todas as idades aplaudiram, fotografaram (até guardas municipais sacaram celulares para registrar o feito!). Muitos caminharam com a manifestação e outros fizeram questão de manifestar seu apoio ao movimento das prostitutas em prol do seu direito de trabalhar com segurança e respeito.

Tão seguidora do seu ritmo, a cidade teve a chance de parar para apreciar a exuberância inigualável do desejo manifesto de existir. Nenhuma alma ficou indiferente.

camara“Polícia, você é meu cliente”

Diante da DP, as prostitutas convocaram o delegado, que não apareceu. Sem se fazerem de rogadas, aproveitaram para mandar uma provocativa cantada: “Polícia, me prende! Você é meu cliente!”. Ou “Policial, vem com a gente! Você é meu cliente!”

Manifestantes de outros movimentos e uma vereadora da cidade aproveitaram o momento para também falar ao microfone. Os apoios foram manifestados diante da delegacia e o cortejo prosseguiu para a Câmara dos Vereadores, onde permaneceu, com suas faixas e palavras de ordem, tomando a escadaria.

Tudo isso aconteceu debaixo de uma fina garoa, que não foi suficiente para borrar a maquiagem das manifestantes nem apagar o entusiasmo dos que puderam ver pra crer.

De volta ao já lendário prédio 327 da Amaral Peixoto – “vem pra Caixa você também!”, cantavam as prostitutas -, uma reunião histórica realizada no hall lançava as bases de um ativismo que promete manter a Cidade Sorriso animada. 

Indianara, prostituta militante, parceira de Davida, Daspu e membro do Observatório da Prostituição-UFRJ, falou sobre os direitos trabalhistas das prostitutas e foi muito aplaudida. Em seguida, a bela Gabriela, batalhante do 327 que havia sido levada para o presídio de Bangu, manifestou sua imensa alegria com a mobilização das colegas e o apoio recebido pelos simpatizantes ativistas desse movimento. 

Antes de subirem todos, prostitutas e clientes, para as salas do 327, uma confraternização e um lanche foi servido com suco e cachorro-quente, no corredor ao lado dos elevadores, para saciar os incansáveis manifestantes. 

Mais aplausos, sorrisos, olhares brilhantes trocados e, com eles, a nítida constatação de que, definitivamente, somos muitas e muitos pela putaria de verdade!

Eu eu eu, eu só dou o que é meu!

Chupo pau / chupo boceta / se for pro inferno chupo até o do capeta!

Seu delegado, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!

U u u, eu só quero dar meu cu!

Tira a mão de mim! Deixa eu trabalhar! Amanhã é um novo dia e eu tenho conta pra pagar!

Prostituição não é crime! Prostituição não é crime!

não é crime

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